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Selic sobe pela nona vez consecutiva e chega a 11,75% ao ano

Alta foi de 1 ponto; Pressão inflacionária agravada pela guerra entre Rússia e Ucrânia faz com que Selic alcance ao maior patamar desde fevereiro de 2017

Pela nona vez consecutiva, o Comitê de Política Monetária (Copom) elevou a taxa básica de juros, a Selic. O reajuste de 1 ponto percentual está em linha com a estimativa do mercado e fez com que a taxa chegasse em 11,75%, a maior desde fevereiro de 2017. Apesar do arrefecimento da pandemia, o cenário desafiador brasileiro de inflação alta e flertes com a irresponsabilidade fiscal fica ainda mais pesado quando a conjuntura internacional é a da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, um conflito que mexe diretamente no preço das commodities e traz efeitos para as economias globais.

“O conflito entre Rússia e Ucrânia levou a um aperto significativo das condições financeiras e aumento da incerteza em torno do cenário econômico mundial. Em particular, o choque de oferta decorrente do conflito tem o potencial de exacerbar as pressões inflacionárias que já vinham se acumulando tanto em economias emergentes quanto avançadas”, afirma o colegiado em nota, que saiu por volta das 19h15, mais tarde do que o horário habitual. O Copom indica que deve seguir um novo aumento na mesma magnitude na próxima reunião, daqui a 45 dias. Porém, “estará pronto para ajustar o tamanho do ciclo de aperto monetário”, isto é, pode voltar a aumentar o ritmo de alta, se for preciso. 

Em um ano, a taxa básica de juros brasileira subiu quase 10 pontos percentuais. Em março passado, a Selic estava em sua mínima histórica, de 2%. Apesar do ritmo forte de elevação, o BC cumpre a sinalização dada na última alta, que poderia diminuir o ritmo das altas — nas três reuniões anteriores, o aumento havia sido de 1,5 ponto percentual. Isso porque a autoridade monetária avalia que os efeitos da alta dos juros são cumulativos e têm como objetivo baixar a inflação para o chamado “horizonte relevante”, ou seja, os anos de 2022 e 2023. Mas os recentes acontecimentos que surgiram no cenário deixam o mercado atento para os próximos passos da política monetária do BC diante de tantas incertezas e de novas pressões inflacionárias.

A guerra entre Rússia e Ucrânia fez explodir os preços das commodities, e os efeitos começaram a ser precificados no mercado doméstico brasileiro, que já vinha de uma pressão inflacionária forte. “A inflação ao consumidor seguiu surpreendendo negativamente. Essa surpresa ocorreu tanto nos componentes mais voláteis como nos itens associados à inflação subjacente”, afirma o comunicado.

A projeção para o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) saltou de 5,50% para 6,45% no último Boletim Focus. A projeção do Paraná Banco é ainda mais pessimista, com o IPCA em 7% ao final do ano, ambas indicando novamente estouro da meta. A meta definida pelo BC é de 3,5%, com margem de tolerância de até 5%. Em 12 meses, a inflação está em 10,54% (acumulado de fevereiro).  “A cada dia a inflação tem surpreendido pra cima, então o Banco Central deve responder a altura para conter a alta dos preços”, diz Fernanda Consorte, economista-chefe do Banco Ourinvest.

No cenário interno, os riscos fiscais voltaram no radar dos economistas com as recentes falas do presidente Jair Bolsonaro de intervir na política de preços da Petrobras. Na reunião passada, em dezembro, o BC bateu na tecla da responsabilidade fiscal e sua importância em um ano eleitoral. Na ocasião, o governo estava as vésperas de aprovar a PEC dos Precatórios e uma mudança no teto de gastos para poder bancar o Auxílio Brasil, programa de transferência de renda. A instabilidade fiscal, com esse novo componente, aumenta ainda mais os prêmios de risco do país, e puxa a taxa pra cima. “Apesar do desempenho mais positivo das contas públicas, o Comitê avalia que a incerteza em relação ao arcabouço fiscal mantém elevado o risco de desancoragem das expectativas de inflação, mas considera que esse risco está sendo parcialmente incorporado nas expectativas de inflação e preços de ativos utilizados em seus modelos”, disse o Copom em comunicado, ao afirmar que segue considerando uma assimetria altista no balanço de riscos. 

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