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Sem eventos por conta da pandemia, ituanos celebram Dia do Orgulho LGBT

Sem eventos por conta da pandemia, ituanos celebram Dia do Orgulho LGBT  Jornal Periscópio

Por André Roedel

Membros do Codisei. Ana Flávia é a primeira em pé da esquerda para a direita. Felipe é o de camisa verde sentado (Foto: Divulgação/Codisei)

Neste domingo (28) será celebrado o Dia Internacional do Orgulho LGBT, data que surgiu após protestos nos EUA pelo fim da violência contra os homossexuais. Em Itu, desde 2017 existe um grupo formado para reforçar a importância do respeito para com as diferenças: o Codisei (Coletivo de Diversidade Sexual de Itu).

Nesta semana, para celebrar o Mês do Orgulho LGBT, a reportagem conversou com dois membros atuantes do coletivo, que falaram das ações do mesmo, da realidade dos homossexuais em Itu e da não-realização de eventos, como a Parada LGBT e a Semana da Diversidade, por conta da pandemia.

Felipe Cavalheiro, 35 anos, morador da região do Pirapitingui, conta que foi uma “situação extremamente delicada” se identificar como homossexual numa sociedade conservadora. “Como a maioria dos LGBT’s, tive medo de ser excluído no ambiente familiar, mas não foi o caso, minha família recebeu a notícia com muita naturalidade e aos poucos fomos aprendendo juntos a lidar com a diversidade”, relata ele.

Fundador do Codisei, Cavalheiro diz que a conquista dos direitos LGBTI+ avançou rapidamente nos últimos anos, mas há muito a ser feito. “Não basta mudar a lei, é preciso mudar a cultura das pessoas”, afirma. “Nosso coletivo tem como objetivo organizar atividades direcionadas ao público com foco em temas LGBTI+, além de contribuir para a construção de uma sociedade democrática”, informa.

Assim como outros coletivos espalhados pelo mundo, o Codisei teve que adiar e repensar suas ações deste ano por conta da pandemia. “Nenhuma ação com aglomeração de pessoas será realizada. Estamos discutindo a possibilidade, precisamos verificar estrutura, de realizar uma parada on-line para celebrar nossa 2ª Semana da Diversidade, que foi adiada para outubro deste ano. Aliás, vale ressaltar que a Lei da Semana da Diversidade, foi uma conquista do nosso coletivo”, declara.

Ana Flávia Toni de Souza Carvalho, 29 anos, é advogada e presidente da comissão de diversidade Sexual e Gênero da 53ª Subseção da OAB-Itu. “Nosso trabalho ainda é longo! É difícil levar informação e quebrar preconceitos”, afirma. Questionada se a sociedade em geral, principalmente a ituana, evoluiu e hoje aceita melhor as pessoas LGBT, ela disse que, infelizmente, não.

“Acredito que no atual momento, principalmente com a questão das mídias sociais, seja fácil para alguns se esconderem atrás de perfis falsos para darem vazão a seus preconceitos. Sem contar que muitas vezes, essas pessoas até tinham seu pensamento desfavorável, mas não tinham o apoio para exteriorizar isso. Hoje com esses vários espaços para se manifestar, o chamado discurso de ódio ganha força e se confunde com opinião”, argumenta Ana Flávia.

CONFIRA AS ENTREVISTAS COMPLETAS:

Felipe Cavalheiro (35 anos), Profissional de Eventos, Palestrante, Defensor da Igualdade. Ituano de coração, morador do Pirapitingui.

Como foi se identificar como homossexual numa sociedade conservadora como a nossa?Foi uma situação extremamente delicada. Como a maioria dos LGBT’s, tive medo de ser excluído no ambiente familiar, mas não foi o caso, minha família recebeu a notícia com muita naturalidade e aos poucos fomos aprendendo juntos a lidar com a diversidade.

Quais os principais desafios encontrados?Os desafios são diários e enquanto houver discriminação não vão acabar. Desde abrir o jogo sobre seu relacionamento homo afetivo no ambiente familiar até o ambiente de trabalho. Sentimos falta de conversar com os amigos sobre nosso relacionamento, como foi nosso final de semana e etc. Conversas normais de início de semana junto aos amigos sabe? Mas para muitos de nós este direito é negado, por medo a rejeição, muitas vezes daqueles que nos cercam.

Você acredita que a sociedade, principalmente a ituana, evoluiu e hoje aceita melhor as pessoas LGBT?A sociedade brasileira como um todo evoluiu, em passos de formiga, mas já vencemos algumas etapas. O reconhecimento da união civil homo afetiva a criminalização da lgbtfobia são apenas algumas conquistas do nosso movimento. Agora falando de Itu, tenho muito orgulho de ter sido uns dos precursores, com a fundação do 1º Coletivo da Diversidade Sexual de Itu – CODISEI. O que nos permitiu a trabalhássemos conteúdos informativos de prevenção a lgbtfobia, através de palestras, debates e outros eventos promovidos por nós.

Na sua visão, qual a importância do mês do Orgulho LGBT?É um mês de extrema relevância para nós, a verdade é que o Orgulho LGBTI+ tem sua importância por conta de uma história de lutas e de combate ao preconceito. Eu sou pessoalmente grato a todos aqueles que simpatizam com nossa causa, e mesmo não sendo LGBT’s, desejam que todos sejam tratados com respeito.

Como tem sido seu trabalho junto ao Codisei?A conquista dos direitos LGBTI+ avançou rapidamente nos últimos anos, mas há muito a ser feito. Não basta mudar a lei, é preciso mudar a cultura das pessoas. É preciso ir além da transmissão de informação e promover diálogos e espaços de ruptura da visão moralista e conservadora sobre sexualidade e gênero que reproduzem valores machistas, heteronormativos e homofóbicos. Nosso coletivo tem como objetivo organizar atividades direcionadas ao público com foco em temas LGBTI+, além de contribuir para a construção de uma sociedade democrática.

Com a pandemia, os eventos programados pelo coletivo foram adiados? Como tem sido o planejamento para as próximas ações?Assim como outros coletivos espalhados pelo mundo, tivemos que adiar, repensar nossas ações para este ano por conta da pandemia. Nenhuma ação com aglomeração de pessoas será realizada. Estamos discutindo a possibilidade, precisamos verificar estrutura, de realizar uma parada on-line para celebrar nossa 2ª Semana da Diversidade, que foi adiada para outubro deste ano. Aliás, vale ressaltar que a Lei da Semana da Diversidade, foi uma conquista do nosso coletivo. 

Por último, gostaria que você deixasse uma mensagem para os ituanos sobre respeito à diversidade.É preciso discutir sobre diversidade, assim como é preciso se conversar sobre outros assuntos que em outro tempo foram deixados para lá, temas que foram vítimas de uma discriminação velada, e tiveram as suas necessidades minimizadas. Eu acredito que a única forma de mudar o cenário é escolher para cargos públicos pessoas que deem valor esse e a outros grupos sociais, para que todos sejam representados de forma igualitária, é nisso que acredito e é a causa pela qual eu luto.

Ana Flávia Toni de Souza Carvalho, 29 anos, advogada, presidente da comissão de diversidade Sexual e Gênero da 53ª OAB Itu e membro do Coletivo da Diversidade Sexual – CODISEI. Mora em Itu.

Como foi se identificar como homossexual numa sociedade conservadora como a nossa?Gostaria de deixar claro que falo aqui como representante de um coletivo e como presidente da comissão da diversidade sexual e gênero da OAB. Quando se fala em diversidade, a raiz da palavra nos traz isso. Não podemos ficar presos a um único referencial: falar em aceitação ou identificação de uma mulher branca, padrão, classe média e, heteronormativa, que sabe de seus privilégios. Porém, eu me questiono das dificuldades de uma mulher trans. De uma mulher que não performa feminilidade, de uma lésbica negra, de um homem gay gordo e tantas outras feridas. A presença dessas siglas na sociedade incomoda. A existência dessas pessoas causa mal-estar em N setores. Recentemente uma travesti foi morta a pauladas no Rio de Janeiro. Em Itu, no último dia 28 de maio houve o caso da trans Vick Santos, encontrada carbonizada e com sinais de estrangulamento. Acredito que nesse ponto, a representatividade, seja ela midiática ou não, sempre nos coloca a frente de padrões: loira, alta, magra, corpo sarado. Se houve algum tipo de dificuldade para minha pessoa essa se deu no âmbito familiar, principalmente por crescer numa família religiosa e conservadora que muitas vezes não entende que sexualidade não é uma escolha. Nunca me ocorreu medo de sair de casa e não voltar. Nunca cogitei a hipótese de apanhar na rua ou ser morta pelo simples fato de existir, de respirar. Nunca tive meu nome desrespeitado ou fui preterida em entrevistas de emprego por ser quem sou. Diferente de tantos outros que vivem num país que a cada 23 horas mata um LGBT.

Quais os principais desafios encontrados?Quando falamos da questão LGBTQIA+, podemos dizer que sem dúvidas o principal desafio é o preconceito. Seja ele embasado em um machismo estrutural ou mesmo em um fundamentalismo religioso. Diante disso, é importante ressaltar a questão da vulnerabilidade de vários LGBTs por aí. E quando falamos da vulnerabilidade, também entendemos a violência e não apenas se resumindo a agressões físicas, bem como as agressões psicológicas, emocionais, afetivas, e patrimoniais – sendo certo que muitas delas ocorrem dentro do ambiente familiar. Sendo certo que tudo gera coisas como: uma negativa de uma vaga de emprego, o bullying escolar e consequentemente o abandono escolar, a expulsão de casa, e tantos outros atos que levam tal população para a marginalidade. No caso das pessoas transexuais, travestis, mulheres que não performam feminilidade e afins esse processo é ainda mais agressivo. A imensa maioria abandona a escola, é expulsa de casa e acaba tendo na prostituição a única alternativa de sobrevivência. É um triste quadro que precisa ser mudado. Quando se fala do nosso coletivo, encontramos muitas dificuldades, principalmente na hora de conseguir apoio e patrocínio para nossos eventos (melhor explanada ao final da próxima pergunta).

Você acredita que a sociedade, principalmente a ituana, evoluiu e hoje aceita melhor as pessoas LGBT?Infelizmente, não. Acredito que no atual momento, principalmente com a questão das mídias sociais, seja fácil para alguns se esconderem atrás de perfis falsos para darem vazão a seus preconceitos. Sem contar que muitas vezes, essas pessoas até tinham seu pensamento desfavorável, mas não tinham o apoio para exteriorizar isso. Hoje com esses vários espaços para se manifestar, o chamado discurso de ódio ganha força e se confunde com opinião. Opinião é algo que não fere a existência de alguém. Eu posso te dizer que gosto mais de amarelo que vermelho e só usar roupas amarelas. Isso não muda uma realidade ou atinge diretamente alguém. A partir do momento em que eu digo que não gosto de vermelho e começo a querer obrigar que pessoas usem apenas amarelo, isso vira um discurso que fere e muitas vezes tira vidas. Obviamente que muitas coisas têm sido conquistadas, recentemente houve a aprovação da lei municipal que colocou a semana da diversidade no calendário oficial de eventos da cidade. Houve a criação da primeira Comissão da Diversidade Sexual e Gênero pela subseção da OAB, a qual tenho o prazer de estar presidindo nesse momento, inclusive, deixo aqui consignados meus agradecimentos ao doutor Rodrigo Tarossi, atual presidente da subseção, pela iniciativa de criar tal comissão e aos doutores César Loghi e Ramon Olads que junto comigo compõe a referida comissão. Isso, sem dúvidas é um grande avanço pois, levar conhecimentos é quebrar preconceitos. Mas ainda temos muitos caminhos a trilhar. Principalmente nessa quebra de preconceitos. Ás vezes, torna-se tortuoso conseguir apoio para os eventos pois marcas e lojas parecem ter medo de “levantar bandeira”, de se posicionar, dada sociedade conservadora em que vivemos e que diversas vezes incitam manifestações como por exemplo: não compre em tal loja, pois ela apoia tal movimento.

Na sua visão, qual a importância do mês do Orgulho LGBT?Quando se fala do mês do Orgulho, é importante nos remetermos às raízes do mesmo, ou seja, voltar no tempo, 51 anos para o levante que ocorreu em Stonewall. E é válido dizer que, até 1962, relações entre pessoas do mesmo sexo eram consideradas crime em todos os Estados Americanos. Nova York, por exemplo, apenas em 1980 alterou seu Código Penal e a homossexualidade deixou de ser crime. Somente em 2003 essa lei seria abolida de vez. Em 1969, os frequentadores do Stonewall Inn, um famoso bar em Nova York, no East Village, se rebelaram contra as incessantes batidas policiais no estabelecimento. A casa, que na época atendia clientes abertamente homossexuais, não tinha licença para vender bebidas alcoólicas, o que motivava o comércio ilícito. Em razão disso a polícia cometia diversas prisões arbitrárias. Em 28 junho daquele ano, a situação chegou ao limite quando frequentadores, clientes, policiais e funcionários do bar se envolveram em um confronto que durou dias. A comunidade interveio e se manifestou favoravelmente à criação de leis antidiscriminação. Nos anos seguintes esse levante foi celebrado pelas ruas de Nova York e o redor do mundo, eternizando junho como o mês do Orgulho LGBTQIA+. Apesar de sua importância histórica e cultural, nós LGBTs não existimos apenas um mês no ano. São 365 dias que não podem se resumir em apenas 30. Nesse mês vemos inúmeras marcas colocando bandeiras do arco íris, mudando cores de fachada. Mas será que essas mesmas instituições possuem travestis e transexuais em seu quadro de funcionário? Será que haveriam tantas meninas trans se submetendo a prostituição se houvesse oportunidade? Reconhecemos a importância e a visibilidade desse mês e dessa data, e somos gratos, pois traz ao debate questões que para muitos são irrelevantes. É bacana poder falar do movimento e entrar nas casas, ainda que seja através de uma reportagem de jornal ou de um anúncio de TV. Mas reforço: existimos e precisamos resistir o ano todo.

Como tem sido seu trabalho junto ao Codisei?Bom, acredito que enquanto coletivo, conquistamos muitas coisas e muitos espaços. Como já mencionado, houve a aprovação da lei com a criação da semana da diversidade sexual. Porém, nosso trabalho ainda é longo! É difícil levar informação e quebrar preconceitos, principalmente e por incrível que pareça, dentro do próprio movimento. Isso é reflexo de uma geração imediatista, que espera tudo ao todo que um botão. Levamos inúmeras questões a debates e palestras, trouxemos nomes fortes dentro do movimento para nossa cidade, mas infelizmente parece não haver adesão. Sabemos que é um trabalho de “formiguinha”, mas que não podemos nos dar por vencidos. O diferencial do nosso coletivo é a pluralidade de siglas. E sempre antes de tomarmos qualquer decisão, procuramos ouvir a todos e entender cada peculiaridade. Às vezes é difícil para um gay entender as dores e necessidades de uma mulher trans ou de uma lésbica. Mas a união de nosso coletivo tem mostrado que isso é possível.

Por último, gostaria que você deixasse uma mensagem para os ituanos sobre respeito à diversidade.Vivemos numa sociedade que se pauta por dualismos. As pessoas sempre procuram seus pares e opostos, quer dizer: você sabe o que é frio porque conhece o calor. Você sabe o que é noite porque conhece o dia, sabe o que é preto porque consegue fazer oposição ao branco. E nisso incluímos a questão macho e fêmea, homem e mulher. Porém é necessário entender que os padrões de gênero e sexualidade são socialmente impostos. Quer dizer, desde criança aprendemos, ainda que erroneamente, que existem profissões e estereótipos relacionados a homem e mulher: meninos jogam bola, meninas brincam de boneca. Como se esse menino não fosse se tornar pai um dia e não precisasse saber como cuidar de uma casa. Então, é necessário quebrar essas “caixinhas”, entender que seres humanos não podem se resumir a padrões e rótulos. E apenas se pautar pelo seguinte pensamento: meu vizinho é feliz sendo casado com um homem? Minha amiga ama a mulher dela? Meu primo é feliz em cima de um salto quinze e uma peruca loira? Se a resposta for sim, não nos cabe querer mudar as pessoas para aquilo que nós julgamentos corretos. Não somos ninguém para julgar o próximo e lançar pedras. Nunca saberemos o que se passa na cabeça de uma pessoa. Cada ser humano em sua individualidade é um universo. Com alegrias tristezas, dores e feridas que não entendemos cabe-nos apenas amar e respeitar. Afinal, não foi essa a mensagem que o Cristo nos deixou?

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