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NBA: O Boston Celtics consertou o problema da última temporada para chegar às finais da Conferência Leste

Celtics e Heat começam a decidir uma vaga na final da NBA, nesta terça, às 19h40, na ESPN
06:00 BT
  • Alana Ambrosio

Nos minutos finais do último jogo entre Boston Celtics e Toronto Raptors, o novato celta Grant Williams viveu um turbilhão de emoções em questão de segundos, pegando dois rebotes ofensivos cruciais para a vitória de sua equipe. Com o relógio marcando 0.35’, Grant sofreu uma falta, foi para a linha de lance livre e perdeu ambos os arremessos. Na sequência, para alívio do calouro, Jayson Tatum compensou o erro, e a franquia com mais títulos da NBA avançou para as finais da Conferência Leste.

Na coletiva de imprensa logo em seguida, Marcus Smart e Kemba Walker rasgaram elogios ao rookie.

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O desenlace da série diz muito sobre este Boston Celtics e sobre a identidade que os trouxe até aqui.

O técnico Brad Stevens confiou no jovem sorridente de 21 anos na partida mais importante da temporada: seus sete minutos de ação foram todos no quarto período, quando os atuais campeões de Toronto estavam mais quentes.

No último draft, quando Grant foi selecionado na 22ª posição, a diretoria sabia exatamente o que queria. Um atleta altruísta em quadra, capaz de fazer todas as pequenas coisas que não aparecem na tabela de estatísticas, para encaixar como luva com as demais escolhas de draft e hoje estrelas: Marcus Smart, Jaylen Brown e Jayson Tatum. Na verdade, quando adolescente, seu pai e os quatro irmãos se irritavam com a aparente falta de ambição individual de Grant William.

No colegial, atuando pela Providence Day School em Charlotte, ele era um líder – mas nunca o cara que anotava muitos pontos. Isso incomodava os familiares (com exceção da sua mãe, Teresa, engenheira da NASA), que temiam pela carreira do irmão mais novo como um team player, passador de bola e catalisador de jogadas defensivas.

Foi exatamente este perfil que o levou à franquia com mais títulos da NBA.

Sobre Brad Stevens, mais de uma década como técnico universitário o moldaram como um excelente desenvolvedor de jovens talentos. E ele adora, em especial, aqueles confiáveis, cuja meta em quadra é se encaixar às necessidades do coletivo.

Os últimos anos ensinaram, na prática, o quanto um bom vestiário faz a diferença.

A saída de Kyrie Irving do Boston, após a eliminação nas semifinais da temporada passada para o Milwaukee Bucks, representou o fim de um capítulo repleto de tensão, no qual a relação entre os protagonistas fora de quadra se sobrepôs ao basquete. No fim de 2019, quando o armador já estava com o Brooklyn Nets, Marcus Smart explicou o quão difícil era não saber qual estado de espírito prevaleceria no ex-companheiro no dia a dia.

Com a partida de Irving, um tipo bem diferente de atleta desembarcou na franquia 17x campeã.

Kemba Walker: o tipo de líder que “checa” como estão os corações dos seus colegas de time antes de entrar em quadra.

"Checking hearts today" #BleedGreen☘️ pic.twitter.com/oc47aGG3qJ

— Boston Celtics (@celtics) September 7, 2020

Verdade seja dita. Antes mesmo desta temporada começar, o elenco teve um bônus: o Mundial de Basquete da China. Durante aproximadamente duas semanas, quatro dos cinco titulares do Boston Celtics viveram uma experiência tão imersiva quanto a bolha criada em Orlando. Jayson Tatum, Jaylen Brown e Marcus Smart conviveram 24 horas por dia com o futuro colega, Kemba Walker. Nos treinos da seleção estadunidense, era comum ver o quarteto unido em atividades de quadra, sentando-se junto no ônibus que os transportava pelas ruas de Xangai e batendo um papo amigável. A química começou a se formar durante o training camp montado em Las Vegas, quase três meses à frente do início da NBA, frequentemente marcado por jantares casuais após as atividades.

Outra vantagem foi aprender os ensinamentos dos legendários técnicos Gregg Popovich e Steve Kerr, responsáveis por liderar os Estados Unidos no torneio. Brown, em especial, foi o destaque do time na China e evoluiu expressivamente de um ano para cá. Já Tatum recebeu muita atenção de Pop no quesito defensivo. Ele e Smart acabaram sendo atrapalhados por lesões durante a copa do mundo.

Embora a eliminação para a França tenha sido um duro golpe ao patriotismo norte-americano, que não sabia o que era perder no Mundial de Basquete desde 2006, a experiência se mostrou altamente positiva para os celtas.

Quem ficou genuinamente feliz com esse “intercâmbio” foi o técnico Brad Stevens. Desde a convocação, o mentor encorajava a experiência.

E toda ajuda seria bem-vinda, levando-se em consideração a própria parcela de desafios pelo caminho.

Um deles era lidar com a perda dos pivôs Al Horford e Aron Baynes. O primeiro, 5x All Star, foi peça importante do elenco recente do Boston antes de assinar com o Philadelphia 76ers. Enquanto o australiano, reserva direto da posição, também se foi em uma troca com o Phoenix Suns.

E, durante boa parte do ano, a dificuldade de levar a melhor em confrontos no garrafão acabou sendo exposta.

Stevens sabia que esse problema precisava ser resolvido até os playoffs.

O turco Enes Kanter foi a opção primária por muito tempo, inclusive no primeiro round contra os Sixers. Mas foi na série contra o Toronto Raptors que a consistência tão apreciada por Stevens ficou evidenciada como uma das marcas do alemão Daniel Theis.

Os números discretos não contam a história toda. Se a defesa contra o notório ataque em transição da franquia canadense prevaleceu, parte do mérito precisa ser dada a Theis, cujo discreto contrato de US$ 5 milhões é um dos melhores custos-benefícios da liga.

A imagem do atleta sendo acidentalmente nocauteado com um chute de Pascal Siakam rodou o mundo. O pivô não reclamou quando a arbitragem deixou de marcar uma violação técnica, mesmo tendo 38 faltas pessoais apitadas contra ele nos playoffs – episódio apelidado pela torcida como “guerra ao Theis”.

Apesar dos seus 27 anos, a maturidade predomina.

Além do aproveitamento razoável dos arremessos, a maior contribuição para o time é quando ele está sem a bola, fazendo bloqueios, liberando o caminho para os companheiros ou se colocando entre o adversário e a cesta.

Cumprindo nem a mais nem a menos do que a função que lhe foi atribuída. A definição da performance pode parecer insossa, mas é exatamente o contrário.

É por esta e outras razões que o Boston Celtics está nas finais da Conferência Leste, mesmo com Kemba Walker tendo 2-11 no aproveitamento de quadra em uma noite, ou com Gordon Hayward lesionado, ou com a falha de comunicação da defesa que permitiu um buzzer beater de Toronto faltando 0.5 segundo.

Depois de eliminar os atuais campeões do Raptors, o técnico dos Celtics explicou com seu jeito calmo como era difícil decifrar as jogadas corretas a se fazer, porque uma estratégia correta falhava na sequência.

O grupo de jogadores outrora desconexo passou o ano inteiro trabalhando para se entender como parte de um coletivo. Resta, então, encarar o próximo desafio com o alívio de saber que estão mais unidos do que nunca.

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